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Desde a adolescência que sou fascinado por música. A música estava contida em enormes bolachas pretas, em retângulos plásticos com fitas magnéticas ou então nas versões mais modernas e reduzidas das bolachas, os CD’s. Nada disso existe mais. A música se digitalizou, se desmonetizou, se democratizou. Flutua pelo éter, gravitando entre zeros e uns.

As grandes gravadoras até se rebelaram contra a apropriação do seu baú de propriedade intelectual. Patrocinaram batalhas judiciais bilionárias contra piratas imberbes, mas foi como tentar conter o tsunami que invadia sem pedir licença o calçadão de mármore polido.

A indústria da música se reinventou.

Quando era criança eu adorava os Trapalhões. Didi Mocó, Dedé, Zacarias e Mussum faziam a alegria dos domingos de todo o Brasil. Mas era um humor dos anos 1970 e suas esquetes reverberavam todos os nossos estereótipos culturais: do preto bebum a todo tipo de alvo: mulheres, viados, pobres e anões.

Vieram tempos polemicamente corretos e começamos a enxergar (ou pelo menos tolerar) o espaço do outro com outros olhos. O Humor continua terreno pra lá de pantanoso e vive brincando de amarelinha à beira do abismo. Mas até ele vem se reinventando.

Na minha adolescência ainda se discutia a virgindade antes do casamento. Hoje já nem se discute o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já se fala em poliamor, amor livre e o antigo padrão binário para designar gênero virou um espectro com matizes que flertam com a multitude.

O conceito de gênero vem se reinventando culturalmente. Quando eu era criança trocava cartas que levavam dias para chegar ao destinatário. Hoje em dia me irrito se alguém leva mais que 30 segundos para responder ao WhatsApp. A Comunicação se reinventou.

Quando eu era criança lia sobre o Desgoverno dos Governos, ouvia dizer que os políticos não cumpriam as promessas de campanha, possuíam privilégios injustificados e blablabla blablablabla.

Hoje a gente lê notícias de Desgovernos, políticos que não cumprem suas promessas, possuem privilégios injustificados e blablabla blablablabla. A política não se reinventou.

O mundo está mudando tão rapidamente que a política parece cada dia mais uma obra de ficção científica, quase inverossímil de tão desalinhada da realidade.  

Mas resisto à tentação de colocar eleitores e eleitos em categorias muito distintas. São frutos da mesma árvore. Quando eu era criança havia profissionais que pediam atestado sem estar doentes, alunos que colavam nas provas, profissionais que sonegavam impostos, paladinos da correção que vendiam a alma e eleitores que vendiam o voto.

Se mudou na intensidade (?) não mudou na essência.

O eleitor não se reinventou.

Continua não se informando, não participando das grandes questões e preferindo o conforto do próprio umbigo à modorrenta tarefa de recosturar os trapos dos nossos desgastados tecidos sociais. Democracia dá trabalho e pressupõe não apenas o usufruto dos Direitos mas sobretudo o exercício dos Deveres. Pressupõe também renúncia de vantagens pessoais em nome de benefícios coletivos. O eleitor continua criticando no atacado aquilo que pratica no varejo.

A música, a fotografia, a cultura, o humor, o amor, a economia, os táxis, a comunicação: tudo está se reiventando.

Temos um país lindo, enorme e de potencial infinito.

Já passou da hora de eleitores e eleitos se reinventarem também.

Somente assim a gente vai inventar um Brasil melhor.