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Mazzaropi e Monteiro Lobato ajudaram a popularizar o perfil caipira

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Do meu ponto de visto, a questão da identidade e, mais especificamente, a identidade cultural, é fundamental para a valorização e o consequente desenvolvimento de um povo.

Uma confluência de fatores levou à criação de um estereótipo pejorativo em relação ao caipira, na passagem do século XIX para o XX, reforçado nas primeiras décadas do século XX em textos literários e jornalísticos. A figura mais expressiva foi a criação de Monteiro Lobato, o Jeca Tatu.

Reconhecer e assumir a identidade cultural é fundamental para valorizar a cultura

Outro fator importante a ser considerado nessa discussão é a dualidade do processo de modernização que se observou no Brasil no início do século XX. Ao mesmo tempo em que a modernidade era representada pelo desenvolvimento urbano em detrimento do mundo rural e arcaico, que foi a base econômica do país durante os séculos anteriores, o desenvolvimento era financiado justamente pelo dinheiro oriundo principalmente dos grandes produtores de café. A criação e cristalização desse estereótipo como uma figura negativa fez parte desse processo, e o caipira teve sua imagem diretamente relacionada ao âmbito rural.

Com o declínio do café, o desenvolvimento das cidades do Vale do Paraíba foi intensamente afetado, chegando mesmo a provocar a “morte” de algumas delas, como asseverou Monteiro Lobato na obra “Cidades Mortas”. Esse foi mais um elemento que contribuiu para reforçar a pecha de atraso relacionada à economia centrada na agricultura e, consequentemente, às cidades e à população rural dessa região.

De fato, esse assunto “dá pano pra manga”, como se diz, mas, por hora, é suficiente dizer e assumir que, apesar de ser acadêmica, professora, doutora... sim, eu sou caipira, assim como todos os habitantes da região do vale do Paraíba, independentemente de morarem em cidades maiores ou menores, na região urbana ou na zona rural. Afinal, se eu não for caipira, eu sou o quê?

A identidade é estabelecida necessariamente em relação ao outro. Assim, no Brasil, cada região tem a sua identidade cultural, que se constitui em função do percurso histórico, da relação com o espaço geográfico e aspectos culturais mediadores das relações socioculturais. Essa é a minha identidade cultural que dá sentido à minha forma me relacionar com contexto do país e com a trajetória de sua formação histórica. Além disso, as identidades são múltiplas e isso significa que a identidade profissional não exclui a identidade cultural, nem as outras possíveis. Assim, eu posso ser professora e filha, acadêmica e caipira, etc.  

Hoje percebe-se mais claramente que o caipira não é o atrasado, o que está restrito à zona rural, o que usa roupas rasgadas, aquele que tem preguiça e que não trabalha, conforme o estereótipo que foi disseminado. A partir de estudos como o de Antônio Cândido (que eu tive o prazer de conhecer numa oportunidade sobre a qual eu gostarei de falar numa outra vez), em “Parceiros do Rio Bonito”, reconhece-se que as características do caipira mais se aproximam da solidariedade, da amistosidade, da religiosidade, entre outras.

Reconhecer e assumir a identidade cultural é fundamental para valorizar a cultura e para promover o desenvolvimento, tanto econômico da região identificada com a sua identidade, quanto individual dos seres humanos que a percebem e assumem.

Acredito que é necessário fazer um alerta: não basta nascer numa determinada região, cidade ou país para simplesmente absorver a identidade imanente e construída historicamente e refleti-la mecanicamente. É preciso ter consciência disso. E ter consciência significa pensar, conhecer e vivenciar.

Por tudo isso afirmo: eu sou caipira. E reconhecer isso implica dizer que eu sei o meu lugar no mundo e identifico a relação que eu tenho com a história da região em que habito e com a dimensão coletiva de sua cultura.

Rachel Abdala

Rachel Abdala é historiadora e colunista do Meon

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