No pain no gain.

Sem esforço não há recompensa, taí uma máxima antiga dos professores de musculação. Tem que se esforçar para ter algum ganho.

É por isso que é sempre difícil persistir na academia, na dieta ou num novo aprendizado, porque a fase do esforço sempre precede a fase da conquista.

Mas volta e meia alguém tenta provar que existem atalhos que nos permitirão obter ganhos sem dores.

Lembro de um comercial de TV que anunciava as maravilhas de um aparelho que estimulava os músculos abdominais por impulsos elétricos, enquanto você não fazia absolutamente nada. Uma troca interessante, pequenos choques passivos ao invés da tortuosa tarefa de fazer centenas de abdominais.

Ler livros, embora esteja na lista das minhas atividades prazeirosas, pra muita gente é como se fossem abdominais mentais. Ler 300, 400, 500 páginas não é pra todo mundo. E parece que está ficando ainda mais difícil, nesse mundo saturado de informação e viciado em miojos intelectuais, fragmentos de informação que consumimos em menos de três minutos, como se a complexidade do mundo pudesse caber num tuíte de 140 caracteres.

- Mas seus problemas se acabaram-se! Foi o que relatou, entusiasmado, um conhecido, a respeito de um revolucionário aplicativo de celular que descobriu, o "doze minutos". Segundo ele, "estudos" demonstraram que todo e qualquer livro pode ser condensado em doze minutos, pois mesmo que ele contenha centenas de páginas, as ideias centrais podem ser resumidas num apanhado relativamente homogêneo e limitado de tópicos.

Faz algum sentido. Sempre me pergunto ao final de cada livro (os de não ficção) o que realmente absorvi do conteúdo, e é muito provável que meu rescaldo de lembrança não dure mais que doze minutos. Cultura fast food.

Mas ao mesmo tempo é meio estranho esse conceito reducionista dos livros. E aquilo que eu assimilei sem nem mesmo perceber que assimilei? E o aumento de repertório que deriva de um consumo mais denso do conteúdo? E o treino intelectual de concentrar todas as atenções num único objeto? E o prazer de passar longas horas devorando um livro?

É pouco provável que tudo isso caiba em quatro miojos sonoros. Aliás, quem garante que ao final do resumo de doze minutos a gente acabe retendo apenas 2 minutos?

Seja como for, parece uma proposta tentadora num mundo que sofre da esquizofrenia de tentar fazer caber uma overdose de informação em janelas de tempo cada vez mais estreitas.

Mas antes que você se solidarize com meu manifesto romântico em favor da imortalidade dos livros, tenho o dever de alertá-lo que não resisti e baixei o aplicativo no meu celular. Só que ouvi apenas um livro, porque não está nada fácil arrumar doze minutos livres nos últimos tempos.

O que falta mesmo é inventarem o aplicativo "48 horas", que faça dobrar a quantidade de horas que temos dentro do mesmo dia.
Se alguém inventar, pode me avisar que eu compro.