CAPÍTULO VIII - NÃO EXISTE SOLIDÃO NO AMOR VERDADEIRO

ocont3

Estar sozinho é uma situação que não está relacionada à solidão. Vejo como uma característica humana e, só agora, aos 50 anos, entendo com clareza e sem aflição. Casar-se, ter filhos, trabalho, amigos, nada disso irá impedir que você, uma hora ou outra, se encontre consigo mesmo.

Me recordo de um Carnaval, quando tinha entre 17 e 18 anos e cheguei em casa de madrugada, depois de haver encontrado amigos no Tênis Clube e subi numa goiabeira, que ficava na quintal na entrada da casa e fiquei ali pensando em como era sozinha. Depois foram os anos no colégio, quando no ponto de ônibus, 11 da noite, chuva e fome, pensava que no dia que tivesse um carro daria carona para todo mundo para que ninguém se sentisse tão só. Quando minha mãe morreu e eu tinha apenas 21 anos, aluguei uma quitinete e todas as noites, quando chegava da faculdade, parava na janela de onde se via uma avenida que chamávamos de fundo do vale e chorava muito, ininterruptamente, pensando em como sobreviveria a tamanha solidão.

Antes de conhecer o Jürgen viajava sempre sozinha, para Ilhabela, Bahia ou Europa. Após nos conhecermos e nos apaixonarmos à primeira vista, o que faz acreditar tratar-se de obra do destino, tive certeza de que jamais me sentiria só. Aliás, sobre esse pensamento bobo, me lembro de uma apresentadora de tv, que tem a mesma idade que eu e engravidou na mesma época e que, ao anunciar a gestação em frente às câmeras, afirmou que, a partir daquele momento, jamais estaria sozinha. Isso causou um certo constrangimento ao genitor, que também estava presente, feliz e apaixonado e muito se especulou sobre a possibilidade de que, por parte dela, o relacionamento tivesse sido edificado exclusivamente no desejo de procriar o que se revelou logo depois, coincidência ou não, com a separação de ambos.

Nossas filhas, a minha e a da apresentadora, têm 17 anos e posso afirmar, quanto a mim, que maternidade não é sinônimo de ausência de solidão.

ocont1

Nos dois anos que namoramos, fiquei muito tempo sozinha no Brasil e também depois que nos casamos, porque ele sempre viajava a trabalho. Mesmo durante nossa vida em comum, procurávamos manter nossos momentos e, em um desses, viajei para Espanha e Itália, quando aproveitei para conhecer a Sicília, local pelo qual o Jürgen jamais demonstrou qualquer interesse. Eu queria muito, pelas histórias e, é claro, pelo filme O Poderoso Chefão, que marcou aquele lugar. Foi incrível embora tenha decidido que não queria mais viajar sozinha. Cheguei ao aeroporto num domingo à meia noite, quando tudo está escuro e com aparência de sei-lá-o-que. Peguei um táxi onde o motorista falava pelo rádio sobre o nosso itinerário e, embora sem entender perfeitamente o italiano, talvez até por isso, eu tremia achando que seria roubada e morta, sem clemência! Chegamos ao hotel no centro de Palermo, local assustador para quem nunca esteve lá durante o dia. Disse que não ficaria naquele lugar e o motorista de táxi me acompanhou a outros hotéis, onde eu dizia para ele entrar comigo até a recepção porque tinha medo que fosse embora com minhas malas. Ele, que se mostrou ser um bom rapaz e contrariando minhas alucinações, foi muito cordial até que finalmente me hospedei no Mercury.

O Jürgen também me ensinou que nos melhores hotéis, sempre haverá disponibilidade. Bem, no caso de Palermo, me instalaram no pior quarto do hotel, tenho certeza, o que me obrigou a procurar outra instalação pela manhã. Mas eu sou sempre muito animada e otimista, então me mudei de hotel, imediatamente aluguei um carro e fui para Taormina. Ah, que dureza. Embora linda a paisagem, foram horas e horas de viagem, em túneis intermináveis. Eu só conseguia pensar que, se algo me acontecesse, jamais encontrariam nem meus ossinhos para homenagear. Os túneis amedrontam porque são quilômetros e quilômetros e quando termina um, começa outro. Todos dirigem em altíssima velocidade. De tanto que pensei que um acidente ali seria fatal que, no meu retorno, logo atrás de mim, um carro rodopiou e um acidente provocou uma confusão ao meu olhar incrédulo pelo retrovisor. Em Taormina, sob forte chuva, encontrei um restaurante, tomei champagne e apreciei aquela paisagem maravilhosa. Retornando a Palermo, passeava de ônibus em uma tarde quando parei para conhecer o teatro onde foi rodada a última cena de O Poderoso Chefão III e soube que haveria uma ópera naquela noite. Que sorte! Fui para o hotel e me preparei para aquela noite especial. Depois da Ópera, jantei em um restaurante charmoso e tomei vinho da casa. Ao deixar a Sicília, estava feliz e fui para Alemanha, cujo país me encanta a cada olhar, em todas as vezes que chego lá mas, pensava, não, não quero mais viajar sozinha.

ocont2

 

O Jürgen sempre foi livre e vive em perfeita harmonia com o estar sozinho, sem se sentir só. Gosta de viajar, de moto ou carro, mesmo sem ter companhia. Uma imagem que ainda me encanta é dele fumando na janela da casa de sua mãe, onde é proibido fumar mas que ele desafia quando ela já está dormindo. Fica todo o tempo sem proferir nenhuma palavra, sem nenhum gesto, exceto o elevar a mão com o cigarro até a boca, tragar e soltar a fumaça, vendo-a branca no ar gelado. A paisagem é iluminada pelo luar, tudo branco, coberto pela neve e o silêncio só perturbado pelas batidas do meu coração, que sabe o quanto esse momento é precioso, o quanto eu amo o meu marido e quão grande é o medo que eu tenho de que um dia tenhamos que nos separar.

Em uma de nossas viagens, quando chegamos em Jersey, na Inglaterra, fomos a uma praia onde haviam poucas pessoas e no alto haviam casas cujos terrenos acabavam exatamente na ribanceira que despencava àquela praia. Me lembro de olhar para o alto e ver uma pessoa que, não sei porque, pensei, seria um francês. Talvez por estar tomando vinho tinto àquela hora do dia, com sol brilhante e forte. Estava sozinho e tentei interpretar o que levaria uma pessoa a estar naquele lugar deslumbrante, tomando vinho numa bela taça, sozinho. Pensei que poderia ter acabado de se divorciar ou estivesse vivendo uma viuvez recente. Não tardou e ele ligou uma mangueira e a água começou a cair onde estávamos, fazendo-nos mudar sob protestos. Conclui que ele deveria ser uma pessoa irascível e, por isso, vivia a solidão merecida enquanto eu vivia o meu conto de fadas, igualmente merecido.

Não sei porque esta cena jamais me saiu da cabeça e, sempre que estou só, penso em tudo o que poderia ser a verdade sobre aquele homem. Talvez tenha ligado a mangueira sem se dar conta de que isso nos afetaria. Talvez estivesse vivendo um momento em que não conseguisse ver ou, pode ser, não estivesse sozinho, mas com uma linda esposa lendo no jardim onde meus olhos não podiam alcançar e suas crianças estivessem se divertindo na casa de amigos.

O fato é que somos sós, ainda que estejamos acompanhados, momentaneamente ou não.

Mas isso não significa que não possamos ser felizes e, é exatamente aí que entra o amor, aquele amor sincero, do onde emana uma luz intensa que nos cega e ilumina nosso íntimo, revelando que por mais que estejamos sós, se nosso amor é verdadeiro, encontraremos aí a razão de viver.

Nesse momento, que só posso oferecer ao Jürgen esta história de amor, procuro dizer que sempre estarei ao seu lado, não importa o que possa acontecer, mesmo que você não volte minimamente a ser o que você era porque, nestes últimos 19 anos, você me encontrou, se casou comigo, me deu seu nome, filhos e me ensinou, mostrou o caminho, sempre com amor, carinho, paciência, segurando a minha mão e, por isso, tem muito crédito comigo.

Você, meu bem, não deve se preocupar, porque o meu amor por você, Baby, é maior que a vida!

Fim.

ocont4

Esta é uma história escrita em 8 capítulos por Regina Aparecida Laranjeira Baumann