travessia_canal_da_mancha_ferry

Travessia no Canal da Mancha

Divulgação

CAPÍTULO VI - AU REVOIR 
Meishu Sama, o líder espiritual da Igreja Messiânica, ensina que toda nossa vida se desenvolve através de razão, sentimento e ação, ao que se denomina sonen. Essa trilogia possui imensa força e, apesar de invisível, alcança todos os homens vivos e seus antepassados, ultrapassando o tempo e espaço, através dos elos espirituais. Por isso ensina que o homem depende de seu pensamento, ou seja, depende do seu sonen.

Para que você consiga ter uma vida plena, deverá ter bons pensamentos, sentimento verdadeiro e agir de acordo com a vontade de Deus. Se falhar em um dos três requisitos, não colherá bons frutos o que não significa, necessariamente, que os que colher serão ruins, caso suas ações não sejam negativas. É possível que você tenha bons pensamentos mas, no mais profundo do seu ser, seu sentimento não seja verdadeiro, legítimo e, com isso, não terá a felicidade almejada. Quanto ao terceiro item, penso que nenhum ser humano tem dúvidas. Todos sabem o que intrinsecamente é certo e o que é errado, variando de cultura mas com pontos de convergência: faça ao próximo o que você gostaria que fizessem por você. Ame seu irmão como a ti mesmo. Não roube, não mate, não traia. Respeite pai e mãe.

Não é fácil colocar em prática esse ensinamento de Meishu Sama, sendo certo que somos traídos, na maioria das vezes, pelo primeiro (pensamento) ou segundo (sentimento) já que não somos dados à más ações. Aprendi isso em 2008, quando passei a frequentar a Igreja Messiânica, a partir de quando toda a nossa vida mudou. Isso ocorreu após 13 anos de vida em comum. Foi tão importante para nós os ensinamentos que aprendemos na filosofia em que se traduz a fé messiânica que, ao final do ano, quando preenchemos um formulário de agradecimento a Deus e a Meishu Sama sobre as conquistas e aprendizados daquele ano, meu filho, com apenas sete (7) anos, escreveu um texto longo, mesmo que não tivesse ainda o domínio da ortografia, o que me chamou a atenção e me levou a indagá-lo sobre o conteúdo do seu relato, ao que me respondeu que agradecia à alegria trazida de volta ao nosso lar.

Quando surpreendido por um trauma, o ser humano naturalmente evoca auto questionamentos acerca de suas ações e omissões, refletindo sobre erros e acertos. Recentemente fui questionada por uma amiga sobre essa reflexão e quais seriam os pontos que mudaria se me fosse permitido. Penso que o Jürgen e eu erramos pouco, porque nossos sentimentos sempre foram sinceros, ou seja, a essência da relação jamais foi afetada, mesmo diante do que aparentemente não revelasse a plenitude de uma relação.

Essa percepção só foi possível após o evento que alterou o curso de nossa vida e fez emergir o ponto vital do relacionamento. Naquele momento fatal, decisivo, quando o véu se esvaiu e a luminosidade reacendeu a energia que produz toda a vida.

O pensamento trai e a complexidade da interação entre as mentes humanas se engana na crença equivocada de independência e, num nano segundo, desaparecem milhares de outros segundos, minutos e horas despendidos com elucubrações sobre ser, amar, viver. Precisamos uns dos outros, essa é a verdade. Tentamos desesperadamente sobreviver frente à solidão que nos é imposta desde o nascimento. Lutamos loucamente preenchendo o tempo com trabalho, estudos, atividade física, terapias, altruísmo e pílulas para concluirmos simplesmente: eu preciso de você!

Li essa semana uma série de ponderações, análises e críticas sobre o atentado ao Jornal Charlie Hebdo ocorrido na França e que vitimou 12 pessoas, por extremistas que não concordavam com o tipo de manifestação expressa nas charges publicadas pelo periódico. Muitos argumentam sobre o que poderia ter sido feito para evitar a tragédia quando o terrorismo não é surpresa no mundo atual e outros acreditam que o comportamento dos cartunistas é que teria sido desrespeitoso e provocativo. Ouvindo opiniões que se revelam diametralmente opostas, penso na realidade humana diante do livre arbítrio que confunde e engana. O amadurecimento que deflui da idade permite assegurar que a sobrevivência da nossa espécie bem que poderia se basear no que ocorre com o universo, seguindo em frente, sem buscar nas profundezas do ser a razão de viver.

Pensando nisso, a conclusão é que retroceder não alteraria o curso desta história, porque não é fácil proteger um homem com mais de 40 anos, 1,93m de altura e com muita energia para contagiar todos aos seu redor. Já o conheci assim, desde nosso primeiro encontro, quando imediatamente fez amizade com todos os meus amigos, que o adoram. Na época eu convivia com um grupo grande de homossexuais, até pela própria idade, quando muitas amigas já haviam se casado. Ele jamais teve qualquer tipo de preconceito, sequer tecendo comentários a respeito. Tinha (e tenho) uma amiga muito querida, de quem sou madrinha de casamento e ela também é nossa madrinha que, sempre que ele ia viajar para Alemanha, brincava cantando: Please, dont go! O carisma do Jürgen para fazer amigos me surpreendia no início. Me recordo de uma viagem onde fazíamos a travessia França-Inglaterra em um ferry boat. Aliás, nesse dia senti a discriminação com meu passaporte verde escuro, diferente dos europeus, cor de vinho. Quando o policial de fronteira percebeu que tinha um passaporte verde escuro nas minhas mãos, fez passar rapidamente todos os que estavam em fila à minha frente, querendo chegar logo até mim, o que me deixou bastante constrangida. Naquela viagem, entramos no ferry ainda com sol alto, dia quente e lindo. Olhamos um pouco o mar e pensamos que deveríamos entrar para reservarmos lugares confortáveis porque logo iria esfriar e todos entrariam. Assim fizemos e nos sentamos confortavelmente em um canto, colocando bagagens e esticando as pernas. Não demorou começou a chover e todos entraram. Em poucos minutos, um grupo de franceses invadiu nosso espaço e, entre crianças e adultos, foram nos imprensando, sem respeitar o mínimo necessário para nós. O Jürgen fazia cara de bravo e dizia que iria fumar ali, para espantar os invasores. Claro que eu pedi que não fizesse isso e os franceses cada vez mais nos apertavam até que, iniciou-se uma conversa e, ao final, só ouvi o Jürgen se despedindo de todos cordial e sorridente, arriscando um francês-germânico: au revoir! Eu só olhava incrédula: como você pode dizer au revoir e blá-blá-blá! Só risos e assim é o Jürgen!

img_20150128_wa0003

Esta é uma história escrita em 8 capítulos por Regina Aparecida Laranjeira Baumann