CAPÍTULO IV - O CASAMENTO
Depois de 18 anos de harmonia em um relacionamento intenso, a mudança drástica imposta por um acidente surpreende pela revolução que provoca na vida das pessoas e as mudanças ocorrem para melhor, libertando, esclarecendo. É como se um véu que ofuscasse sua visão durante anos simplesmente caísse. Você passa a ver com clareza o que realmente tem importância e tudo o mais desaparece. Logo após a transferência do Jürgen para o hospital Santos Dumont, agi como descreve Franz Kafka em O Processo, quando ele é surpreendido logo pela manhã por um oficial de justiça trazendo uma acusação sobre a qual ele nada sabe. Preciso me organizar, pensei. Acredito em energia e que Deus só poderá lhe conceder o que for pedido. Então pensei que deveria permanecer próxima, mantendo ligados nossos sentimentos, para que o Jürgen não dispersasse. Também pensei que deveria pedir a Deus exatamente o que eu queria e, assim, passei 10 dias no hospital, que é o período crítico em acidentes dessa natureza, só saindo após a última visita ao centro de terapia intensiva, por volta das 22:00 horas. Minha convicção era de que a relação, agora, ocorria através da força do universo, em contato direto com a espiritualidade. Não pretendia forçar uma situação como uma criança teimosa, mas apenas me posicionar de forma firme, tanto para manter o Jürgen conectado com o mundo, através do nosso elo espiritual, quanto para demonstrar a amplitude do meu sentimento. Tinha a certeza de que poderíamos ter uma nova chance, tanto porque merecíamos, como pessoas que buscam ser justas e íntegras, quanto porque o que nos uniu é maior do que os desastres dos erros que cometemos.

Pedi uma nova chance porque, a minha certeza de que queria ter uma família, assim como a certeza do Jürgen, não foram suficientes para nos proteger das armadilhas do cotidiano, que nos corroeu, enevoando o encanto do início da relação. Naquela primeira noite, quando nos conhecemos, meu inglês não era tão fluente e não conhecia sequer uma palavra em alemão. Mesmo assim, diante da atração mutua, expliquei a ele que não poderia me envolver com um estrangeiro porque, como brincávamos à época, aos 32 anos estava sem tempo para procurar o futuro pai dos meus filhos. Ele, com uma determinação que o passar do tempo revelou ser às vezes prejudicial, respondeu que poderíamos sim ficar juntos porque ele se casaria comigo. Prosseguindo naquela conversa que parecia sem qualquer consequência, expliquei que não poderia exercer meu trabalho em outro país, especialmente na Alemanha e ele afirmava que viria morar no Brasil. Naquela noite achei que eram promessas sem fundamento e só passei a acreditar quando estava sentada na cabeceira da mesa, junto com sua família. Esse o contexto onde se edificou a relação e, embora muitos tenham sido os reveses no transcorrer destes 18 anos, na hora h, como diria minha avó, não tive dúvidas sobre o que queria: viver junto com o Jürgen, até que, bem velhinhos, pudéssemos partir juntos para a próxima vida como Tomás e Tereza, em A Insustentável Leveza do Ser, embora eles tenham partido jovens.

Namoramos durante o ano seguinte em que nos conhecemos (1996) e curtíamos longas ligações telefônicas, cartas, viagens pelo Brasil e pela Europa. Acreditando no que ensinou Maquiavel em O Príncipe, tinha certeza de que deveríamos manter a independência econômica e, assim, sequer cogitamos morar na Alemanha porque lá não poderia exercer a advocacia. Como o Jürgen tinha um ótimo emprego e trabalhou toda a vida com aquelas máquinas, também para ele não seria fácil mudar-se para o Brasil. Entretanto, fomos agraciados pela oportunidade que quase passaria desapercebida, não fosse um amigo que me ligou um dia indagando se o Jürgen já havia se apresentado para o contrato de trabalho no Brasil. Não acreditei! Liguei para ele imediatamente e soubemos que um outro alemão, talvez enciumado com a oportunidade, havia omitido o convite. Esta foi uma das primeiras, dentre muitas decepções que o Jürgen teve no Brasil e que talvez tenham sido a causa do conflito que ele vivenciava na época do acidente, provocado pelo enfarto do miocárdio. Aproveitamos a oportunidade, ele veio trabalhar no Brasil e iniciamos os preparativos para nosso casamento.

Esse contrato de trabalho foi um daqueles acontecimentos dos céus, porque ele não precisou rescindir o contrato na Alemanha. Foi programado para durar dois anos e durou cinco, tempo suficiente para que o Jürgen encontrasse seu caminho profissional no Brasil. Após a demissão, montou sua própria empresa, onde trabalhou até o dia do acidente.

Nossa ideia era, então, que o primeiro filho nascesse no verão e para isso teríamos que engravidar nos primeiros meses do ano. Ele viajava de Sorocaba a São José dos Campos todos os dias para fazer o trabalho, como diz sorrindo. Eu, já aos 34 anos, queria que tudo se desenvolvesse de forma natural e que só iríamos constituir uma família depois do casamento. Morava em um apartamento alugado na Vila Adyanna, de três dormitórios, mas pequeno para abrigar nossa nova família. É um lugar maravilhoso, em frente à praça Romão Gomes, onde eu acordava ouvindo os pássaros e próximo a restaurantes, academia e tudo o que precisávamos. Às terças tinha feira e eu adorava ouvir a movimentação na madrugada. Encontramos um apartamento lindo, com arquitetura que lembra Oscar Niemeyer localizado em frente ao banhado, com uma vista maravilhosa. No dia da mudança ele estava na Alemanha e eu, que não consegui dormir um só minuto por causa do barulho horrível daquela avenida, liguei para ele durante a madrugada, chorando, com caixas e mais caixas no meio da sala e só me acalmei depois que desci à recepção, porque não conseguia ficar sozinha naquele apartamento de 200 metros quadrados e o zelador gentilmente me perguntou se havia comprado o apartamento. É claro que ele sabia que eu não havia comprado, porque zeladores sabem tudo o que acontece no prédio, mas foi uma forma amável de me acalmar e que deu resultado. Na hora parei de chorar e concordei com ele que poderia me mudar, se realmente não me adaptasse. Passada aquela noite e mais algumas, iniciamos nossa vida juntos naquele belíssimo apartamento, onde fomos muito felizes. Lá nos reunimos com amigos, fizemos churrasco na varanda aos fundos, que é enorme, nos casamos e tivemos nossa primeira filha. Pintamos nosso quarto de azul, a sala de amarelo. Cortinas, móveis, plantas e tudo com o que eu havia sonhado.

Depois da mudança e nossa filha já a caminho, só faltava casar porque, ah Sr. Baumann, eu disse que só moraria junto após o casamento. Aliás, durante os meses que antecederam esta mudança de apartamento, teoricamente ele morava no hotel e eu no meu apartamento. Eu tinha convicção de que morar juntos só casando... Mas tudo bem, às vezes é necessário rever nossas posições e por isso aceitei montar o nosso lar antes do casamento. Daí uma promessa que o Baby terá que cumprir. A família dele só poderia vir ao Brasil no mês de férias, em agosto. Então engravidamos no primeiro semestre e programamos o casamento para agosto e ..... meu cunhado ligou indagando quando seriam minhas férias. Respondi que seria no próximo verão (europeu). Não sabia que ele, pela minha disponibilidade de viajar em agosto, marcaria o casamento dele para aquele agosto. Mas e eu? Quase morri. Como poderia ser mãe solteira aos 34 anos? Que fazer? Eles namoravam há 13 anos, marcaram o casamento em agosto para que eu pudesse viajar sem problemas o que poderia dizer? Resolvemos nos casar em novembro ou dezembro, quando eles poderiam vir e eu já estaria com a barriga enorme. 

Fomos para o casamento e, embora minha gravidez não fosse visível, estava passando muito mal, enjoando o tempo todo, só queria dormir. O casamento foi um encanto. Várias festividades marcam as bodas na Alemanha. Uma festa na casa de amigos com todos os homens tomando muita cerveja e as mulheres apenas assistindo porque são as motoristas e não podem beber. Eu estava grávida e ciente de que não deveria ingerir nenhum tipo de bebida alcoólica e por isso não senti tanto esta discriminação. Outra festa, onde quebram-se pratos na rua e os noivos têm que limpar. Casamento no civil e toma-se champagne na praça. Finalmente o casamento na igreja, as 14 horas e depois quase todos se encaminham para o salão de festas porque alguns são convidados para igreja e não para a festa. Ao ser indagado se isso não causaria constrangimento aos não convidados, o Jürgen me respondeu que não, é natural que alguns não possam ir à festa, que não pode receber a todos. Essa simplicidade no conceito do que é razoável e aceito por todos é algo que me encanta nos alemães. No salão os convidados são recebidos em uma recepção onde, todos em pé em frente a um balcão com frutas e champagne, conversam e tomam drinks diversos, oportunidade em que as pessoas são apresentadas umas às outras, especialmente eu, que era desconhecida da família. Depois fomos encaminhados para o salão onde acontecem muitas brincadeiras com os noivos interagindo com os convidados. Música, dança, teatro, filme, enfim, uma festa inesquecível.

Naquele dia, foi a primeira vez que minha sogra se indispôs comigo. Nós dois, alegres e brincalhões como sempre, fomos contar que estávamos grávidos. Para ela, acabou a brincadeira. Acho que ela nunca vai me perdoar porque o Jürgen veio para tão longe e sua dor foi potencializada pelo acidente porque, se ele não estivesse no Brasil, isso não teria acontecido. No momento em que falamos da gravidez, desapareceu o sorriso do rosto dela e iniciamos uma convivência que embora nunca tenha sido de fato conflituosa, porque ela é uma pessoa doce, no fundo guarda uma dor, que não é mágoa, nem raiva, apenas o sentimento de lhe ter sido tirado algo muito valioso. Eu a entendo perfeitamente e nunca discuti sobre isso. Apenas tentei mostrar-lhe que o Jürgen não se mudou para o Brasil por minha causa, mas porque queria viver em um país onde a cerveja esquenta no copo antes que você tenha tempo de beber. Se não se casasse comigo, se casaria com outra mulher e, sendo assim, estaria vulnerável mesmo que eu não surgisse na sua vida. Ela é sempre gentil e carinhosa comigo mas, nas brincadeiras, fica extremamente feliz quando perco nos jogos. As vezes fico triste mas também não gostaria que meus filhos fossem viver tão longe.

No casamento do meu cunhado, meu sogro já estava doente e foi a última vez que o vi. Foi carinhoso comigo, não emburrou pela gravidez e, ao contrário, falamos sobre filhos e ele me ensinou a testar na bochecha a temperatura da mamadeira. Ele era um alemão bonito, olhos azuis e adorava trabalhar na sua oficina, localizada na parte inferior da casa, que me encantou pela organização e de onde tirei muitas fotos. Essas minhas atitudes de me surpreender, fotografar, brincar, sempre foram muito bem aceitas por todos e nosso relacionamento era alegre e cordial. Me lembro que antes de uma viagem de carro para Luxemburgo, com um canivete suíço nas mãos escondidas por trás do meu corpo, disse a ele que não precisaria se preocupar conosco porque tinha uma arma infalível. Quando mostrei o canivete, ele quase morreu de rir. Mais engraçado era porque eu não falava alemão e eles (sogro e sogra) não falavam inglês ou português. Então nossas conversas eram uma mistura de inglês e alemão, tudo rico de improvisações, mímica e traduções destrambelhadas, que nos divertia e distraia.

Começamos a pensar no nosso casamento, que deveria ser no final do ano, quando a família poderia vir ao Brasil. Meu sogro faleceu em setembro, o que inviabilizou qualquer conversa sobre festa ou a vinda deles para cá. Assim, concordamos em nos casar no civil e o Baby prometeu – e terá que cumprir – que se casaria comigo na igreja, igualzinho planejado com o aval de Santo Antônio.

Quis a cerimônia mais simples possível, pois pensei que logo nos casaríamos na igreja o que não aconteceu não sei porque. Nos casamos no dia 7 de novembro e foi tudo muito romântico, na sala de nosso apartamento, onde decorei com flores e contratamos um buffet. A música era um CD escolhido por mim que minha amiga deveria trocar durante a cerimônia e que ela esqueceu. Assim, tudo aconteceu ao som de uma única música. Como era um coquetel, não haviam mesas e todos os 70 convidados ficaram em pé até se espremerem nos poucos lugares onde se podia sentar, principalmente as mulheres, que riam pela minha brilhante ideia.

Nossa lua de mel foi num hotel, com flores e champagne. Viajamos para Natal e Fernando de Noronha onde cheguei chocada por ser tudo tão rústico. Logo pensei que aquela não era a lua de mel que havia sonhado (e merecia) sendo transportada por uma perua Kombi velha, chegando a uma casa de madeira que chamavam de pousada e cheia de lagartixas nas paredes, nos esperavam com um almoço servido em buffet mal arrumado com salada de tomate e alface. Bastou a primeira saída à praia para confirmar todo o encanto e beleza extraordinária daquele lugar, com a natureza exuberante verde, azul, branca, que nos proporcionou uma viagem realmente maravilhosa pela nossa fourth honeymoon, porque as anteriores foram na Europa, como ele sempre faz questão de me lembrar. O Baby fez curso de mergulho, jantamos lagosta em restaurantes simples e pé na areia. Nadando enquanto esperava o Jürgen mergulhar, um peixinho mordeu minha barriga onde estava minha filha, fazendo escorrer um fiozinho de sangue e me fazendo chorar de alegria. 

Esta é uma história escrita em 8 capítulos por Regina Aparecida Laranjeira Baumann