Para especialistas, novas gerações reescrevem o sentido da troca de cartas
Professora de Antropologia analisa motivos que levam as novas gerações a trocar correspondências com amigos

Com a chegada de meios de comunicação mais eficientes, a troca de correspondência ganhou novos significados ao longo das décadas. Escrever cartas se tornou um hobby, um trabalho manual ou até uma forma de experimentação social – especialmente entre as gerações que adotam a prática pela primeira vez.
“Sempre que se traz para o presente uma coisa típica de determinada época é porque, no presente, isso está fazendo sentido”, aponta Lilian Torres, professora de Antropologia da Faap. “Não é uma sobrevivência do passado pura e simplesmente. É algo que informa, comunica um estilo de vida, um valor, crenças, e faz sentido neste momento para essas pessoas. Não é meramente sobrevivência do passado, tem uma função no agora.”

As cartas são uma forma de ‘experimentação social’
Repodução
A especialista comenta que a carta tem algumas características antagônicas aos meios de comunicação tecnológicos (como telefone, e-mail e afins), por não ser instantânea e precisar ser postada. “Demanda mais tempo, relação com muitos intermediários. A carta tem essa relação muito física, fazendo escolhas de papel, de caneta, de envelope, de adesivos, de cores.”
Outro aspecto ressaltado pela professora é que a escrita, embora tenha destinatário, também é um processo pessoal.
“Envolve um contato mais íntimo com o seu gosto, interesse, é um tempo que a pessoa vai mergulhar em si, naquilo que vai compor a mensagem, que é um dado de intimidade, mais personalizado, individualizado.”
“A carta se contrapõe à instantaneidade do online, que tem respostas curtas. Se demoram a responder, causa uma frustração”, comenta ela. “Na carta, com os trabalhos manuais, a pessoa tem ali um sinal de personalização, se distingue naquele trabalho, é uma forma de distinção da pessoa.”
Professor de Sociologia da Universidade Mackenzie, Rogério Baptistini comenta também sobre diferenças entre os meios de comunicação. “A comunicação instantânea é mais fugaz, a leitura menos ansiosa e detalhada”, compara. “Se escreve sobre assuntos banais do cotidiano, a reflexão se perde no decorrer do dia.”
“A comunicação hoje por WhatsApp e aplicativos instantâneos aparentemente nos aproxima, mas mais parece uma ordem comercial de um departamento para outro e fica esquecida no turbilhão de mensagens que preenchem o dia a dia”, completa o professor
Sociabilidade
Para ele, o interesse de gerações mais jovens por cartas segue uma tendência de parte dessa população, que está “virando as costas para o uso indiscriminado das redes sociais, com a busca de normais mais verdadeiras de sociabilidade”. “É um fenômeno de busca de interação de uma forma mais autêntica.”
Leia também: Troca de cartas volta a ganhar adeptos e transforma-se em hobby na era digital
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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