O transformismo é um fenômeno conhecido na política italiana. O partido que exerce o poder coopta os chefes da oposição e, assim, além de manter seu status ainda decapita a organização adversária. Professor da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Roma Tor Vergata e membro da Fundação Instituto Gramsci, o historiador Gianluca Fiocco acredita que o fim do governo da Liga (direita) e do Movimento 5 Estrelas (M5S, centro) era esperado, pois tinha duas almas. E, assim, em uma semana, sem que haja novas eleições, a Itália pode passar de um governo de centro-direita para um de centro-esquerda. Não que isso vá mudar muita coisa. Continuariam existindo duas almas, só que a do M5S e a do Partido Democrático (PD, centro-esquerda). A seguir, a entrevista:

Por que mais essa crise? O sistema político italiano é instável?

Tínhamos um governo com base em duas forças com diferenças importantes: o M5S e a Liga. Elas se uniram como forças antissistema, alternativas aos partidos tradicionais. Mas tinham interesses diversos: a Liga é muito próxima ao ambiente empresarial do norte e o M5S mais do sul. Era um governo com duas almas. A Liga é favorável às grandes obras e o M5S é mais próximo de um ambientalismo. Há meses que se falava de uma crise. E agora Salvini (Matteo Salvini, líder da Liga e ministro do Interior) a provocou. O problema é que a Itália está em uma situação social e econômica difícil. Esse governo fez uma reforma de pensões e criou a renda cidadão (espécie de Bolsa Família) prevendo um crescimento econômico que não veio. E agora temos de aprovar uma lei orçamentária que será dura e precisamos de um governo forte, um governo com autoridade. Por isso, cresce a ideia de não se ir ao voto imediatamente e criar uma maioria alternativa.

O ex-ministro Carlo Calenda chamou a atenção para o transformismo em uma aliança entre o PD e M5S. O ex-primeiro-ministro Matteo Renzi (PD) alertou para o risco de grilinização (referência a Beppe Grillo, o humorista que fundou M5S) do PD. Com tantos temores, será possível um governo de centro-esquerda?

Certamente a coisa não é simples, até porque houve uma polêmica longa e contínua entre o PD e M5S. O M5S apresentou Renzi como um governo que arruinou a Itália e o PD dizia que o M5S era formado por novos bárbaros, incapazes de governar. Podemos ser um governo com partidos que assumam responsabilidades, para aprovar a lei orçamentária e, depois, organizar as eleições.

O que significaria um governo guiado por Salvini e pela Liga?

Um governo da Liga só seria possível após eleições. As sondagens dizem que ela teria um ótimo resultado e seria o primeiro partido. Mas não sabemos se teria a maioria sozinha. Há tensões e diferenças no interior da direita. E isso vai além da relação com a União Europeia. A Liga não deseja uma saída da Europa, como a direita em vários países. Em vez disso, sempre foi mais moderada. A ideia, no entanto, é a de que a Europa não está bem e é necessário um confronto com Bruxelas em defesa dos interesses nacionais. Ela fala muito de "soberanismo", uma nova tendência de uma direita agressiva, contra a qual a Liga serve de anteparo. Seu "soberanismo" é muito moderado. Na Liga há setores radicais, mas o partido tem uma linha que não é de ameaça à democracia. Seu sucesso está ligado ao fato de se apresentar como salvadora de um país amedrontado, que atravessa condições socioeconômicas difíceis. Ela encontrou um terreno fértil: a defesa dos italianos e suas tradições. Mas nosso sistema político é feito de pesos e contrapesos. Apesar de personagens como Silvio Berlusconi, Renzi e Salvini, que parecem ter o controle da situação, na realidade, jamais alguém teve o controle da política italiana. Não há ninguém como Angela Merkel, que possa ser a regente do sistema político.

A Itália já teve políticos como Sandro Pertini, Enrico Berliguer e Francesco Cossiga. Hoje tem Salvini, Renzi, etc. A política empobreceu na Itália?

Há um empobrecimento geral da política em todo mundo e não só na Itália. A democracia não pode ser apenas votar de quatro em quatro anos. A democracia vive também por meio da participação dos cidadãos, pois diante de uma cidadania responsável também a política se torna responsável. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.