Nunca uma eleição para o Parlamento Europeu teve tanta importância como a que começa nesta quinta-feira, 22, justamente porque forças nacionalistas de ultradireita, contrárias à União Europeia, tendem a ganhar espaço. A campanha foi marcada por grupos que espalham discurso de ódio e notícias falsas por meio do Facebook e de aplicativos de bate-papo privados e criptografados, como o WhatsApp.

Segundo analistas, os grupos nacionalistas se tornaram ameaças maiores do que potências estrangeiras, como a Rússia. Os principais alvos são França, Alemanha, Itália, Reino Unido, Polônia e Espanha, onde pelo menos 500 páginas do Facebook foram descobertas nesta semana. Ontem, um estudo divulgado pela ONG Avaaz identificou 550 contas do Facebook usadas para disseminar ataques à UE, contra imigrantes e contra minorias étnicas.

A rede de contas teria sido criada por cinco ou seis usuários falsos, publicava discursos de ódio e pretendia "espalhar mensagens de supremacia branca". A Avaaz identificou 328 perfis que partilhavam ataques e notícias falsas. As páginas foram visualizadas 533 milhões de vezes em apenas três meses.

O Facebook eliminou as contas que tinham cerca de 6 milhões de seguidores e nas quais proliferavam notícias falsas e discursos de ódio. A maioria foi descoberta por publicar e partilhar conteúdo, por meio de perfis falsos. A Avaaz está investigando outras contas, que somam 26 milhões de seguidores.

Essas redes eram muito mais populares do que as páginas oficiais dos grupos populistas de extrema direita. "As páginas têm altos níveis de interação, algumas com milhões de seguidores. Mas mesmo as que têm poucos seguidores podem atingir milhões de pessoas em razão das múltiplas interações", afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo Luca Nicotra, analista do Avaaz na Itália, que participou da investigação.

Segundo o Avaaz, "eles têm mais de 500 milhões de visualizações apenas nas páginas apagadas, o que é mais do que o número de eleitores na UE".
As notícias e ataques divulgados por grupos populistas e de extrema direita promovem temas contra imigração, gays e minorias étnicas, além de negar o aquecimento climático.

"Antes era possível identificar a participação da Rússia e seus grupos. Agora, o que vemos são grupos transnacionais, usando notícias falsas e discurso de ódio, além de um conjunto mais complexo de táticas para amplificar as narrativas populistas", afirmou Sasha Havlicek, CEO do Institute for Strategic Dialogue.

As empresas de tecnologia intensificaram os esforços para combater notícias falsas. O Facebook montou uma equipe de pesquisadores e especialistas em inteligência para monitorar abusos.

O Twitter lançou uma ferramenta para os usuários da UE denunciarem deliberadamente conteúdo enganoso relacionado a eleições. As duas empresas afirmam não ter detectado nenhum ataque ou perigo vindo da Rússia.

Segundo analistas, isso acontece porque as ameaças estão vindo de dentro da UE. Pesquisadores da Universidade Oxford estudaram nos últimos meses tuítes relacionados às eleições e descobriram que apenas uma pequena fração de notícias falsas veio de fontes russas.

"Quase nenhuma das porcarias que encontramos circulando online vem de fontes russas conhecidas", disse Nahema Marchal, pesquisador do Oxford Internet Institute. "Em vez disso, é a mídia caseira, partidária e alternativa que domina." (Com agências internacionais/Rodrigo Turrer)


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.