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Quais as principais diferenças entre o sistema educacional brasileiro e o americano? Com o intuito de melhor entender o porquê dos EUA estarem entre as potências da educação mundial, mesclado à atual conjuntura brasileira, tomei por conta uma entrevista com Gustavo Haddad. O ex-estudante de São José dos Campos graduou-se no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), considerado pelo Ranking QS como a melhor universidade do mundo.

QUAL A MAIOR DIFERENÇA ENTRE O SISTEMA EDUCACIONAL DAS UNIVERSIDADES AMERICANAS E BRASILEIRAS?

Acho que existem várias diferenças importantes, mas para mim a mais marcante é a valorização, nos Estados Unidos, de uma exploração acadêmica mais ampla em detrimento de uma especialização precoce. No Brasil, todos prestam vestibular para um curso específico e, se quiserem mudar depois, são obrigados a prestar vestibular novamente ou passar por processos de transferência por vezes bastante complicados, desperdiçando tempo e créditos de curso, que na maior parte dos casos não conseguem ser integralmente aproveitados. Nos Estados Unidos, a pessoa é aprovada para a universidade, não para um curso específico. Isso permite que ela explore, nos primeiros semestre ou até anos, diversas matérias de vários ramos diferentes, até escolher aquele com que mais se identifica. É claro que isso exige uma responsabilidade maior por parte do aluno na escolha da grade curricular, mas, de um modo geral, acredito que contribui para permitir que os alunos façam escolhas melhores e mais conscientes de carreira. No meu caso, isso foi muito claro: eu comecei o curso decido a fazer Física, posteriormente mudei para Engenharia Elétrica e depois emendei ainda Ciência da Computação.

O QUE PODEMOS APRENDER E UTILIZAR COMO INSPIRAÇÃO DERIVADO DAS GRANDES UNIVERSIDADES DO EXTERIOR?

As universidades americanas, penso, têm bastante coisa a nos ensinar, mas temos de tomar cuidado para não cair na armadilha de pensar que tudo lá funciona perfeitamente e pode ser simplesmente “copiado” de maneira descriteriosa. Para exemplificar algo que vejo como muito positivo, além da maior flexibilidade acadêmica, citaria o grande estímulo à cultura de contribuições futuras para a universidade: boa parte do patrimônio dessas instituições vem não das mensalidades cobradas (apesar de bastante altas), mas de doações por parte de ex-alunos, o que permite bolsas para estudantes de menor renda e mais recursos para pesquisa.

HÁ ASPECTOS POSITIVOS DO SISTEMA EDUCACIONAL UNIVERSITÁRIO BRASILEIRO FRENTE AO AMERICANO?

Sem dúvida. Acho, aliás, que, em boa parte dos casos, um sistema híbrido, que misturasse a parte que funciona bem no Brasil com a que funciona bem nos Estados Unidos, produziria resultados muito mais desejáveis do qualquer dos sistemas isoladamente. Por exemplo, outra característica marcante do sistema americano é que a seleção para as universidades se dá de modo holístico, levando em conta não só a nota no exame de admissão, mas também critérios como histórico escolar, cartas de recomendação de

professores e atividades extracurriculares. É algo interessante porque permite uma análise muito mais ampla da vida do candidato, e não apenas da parte estritamente acadêmica, mas que, por outro lado, torna a seleção muito mais subjetiva. Justamente por introduzir essa subjetividade, não acho que seja algo a se copiar cegamente. Acredito que um modelo híbrido, em que parte das vagas fosse disponibilizada por nota (critério puramente objetivo) e parte por nota e outros componentes (critério também subjetivo), funcionaria melhor.

COMO PODEMOS AJUDAR A CONSTRUIR UMA MELHOR EDUCAÇÃO?

Acho que o ensino brasileiro tem problemas de diversas ordens. Muitos desses problemas já caminham para se resolver, e eu de um modo geral vejo com otimismo o futuro da educação nacional. Mas acho que um problema grave é que a discussão atual está se tornando, de certo modo, míope: foca-se muito na questão de acesso e qualidade do ensino superior, quando o problema verdadeiro é no ensino médio e, principalmente, no fundamental. Nenhum país do mundo resolve problemas do ensino superior sem antes se dedicar às questões que atingem o médio e o fundamental. É enxugar gelo.

COMO SUAS EXPERIÊNCIAS IMPACTARAM SUA VONTADE DE ENGAJAMENTO?

O MIT, onde me formei, é um espaço muito cosmopolita. Acho que ter contato com pessoas dos mais diferentes países do mundo e perceber que todos eles, sem absolutamente nenhuma exceção, sofrem com algum tipo de problema e que não existe “lugar perfeito” é algo que contribuiu muito para despertar em mim uma vontade de ajudar a melhorar o meu País. O Brasil tem, sim, diversos problemas, mas eu acredito sinceramente que um dos principais é um pessimismo crônico, ainda por vezes que disfarçado. Muita gente, infelizmente, pensa que a situação está tão ruim que não há como melhorar. Isso é simplesmente falso, e ter contato com pessoas de outros países evidencia o quão falacioso esse pensamento é: todos os países têm problemas, muitos extremamente similares aos nossos, e os que melhoraram, melhoraram aos poucos. A mudança verdadeira exige trabalho duro e esforço, e não é feita do dia para noite. É necessário acreditar que ela pode e vai acontecer.

QUAL SEU MAIOR SONHO/PROJETO ATUALMENTE?

Além de educação, uma área pela qual me interesso muito é o Direito. Sou autor de um livro de Direito Constitucional (O Estado Constituído, Ed. Lumen Juris, 2016), e atualmente tenho uma proposta, que tramita no Senado Federal, de levar políticos acusados de crimes a júri popular. É um projeto que eu gostaria muito de ver avançar, e que aproveito para convidar a todos para votar favoravelmente pela página do Senado: http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/129760

QUAL SUA RECOMENDAÇÃO AOS ESTUDANTES VESTIBULANDOS?

Se eu fosse capaz de ensinar a alguém apenas uma única coisa, ensinaria a gostar de estudar. A capacidade de tornar o tempo de estudo prazeroso é uma das habilidades mais importantes para se conseguir sucesso em qualquer prova que seja, a começar pelo vestibular. Não é com exagero que se chega lá: vestibular não é uma corrida de 100m rasos, mas uma maratona. A preparação tem de ser feita com isso em mente.

QUAL SUA RECOMENDAÇÃO AOS JOVENS QUE TÊM SONHOS VINCULADOS À EDUCAÇÃO?

Não deixar que eles moram pela dificuldade de se realizarem. Mudar efetivamente alguma coisa é um processo longo e trabalhoso. Mas, no final, vale a pena.